Adeus MSN

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Envelhecer hoje em dia é presenciar o falecimento de tecnologias relativamente novas em pouquíssimo tempo. O avanço de hoje corre o risco de virar história de uma hora pra outra, e com uma rapidez cada vez maior. O que até ontem era considerado um arroubo tecnológico, hoje já não serve mais. Com o nosso amigo MSN não poderia ser diferente.

Me lembro como se fosse hoje quando dei os primeiros passos, digo cliques, numa internet quase movida a carvão com seus escassos 56kps de velocidade. Quem não lembra com nostalgia do barulho medonho da conexão sendo realizada? Sempre depois da meia-noite é claro, que era pra não assustar a família com os gastos telefônicos.

Tela do famigerado mIRC.

Nesta época, meado dos anos 90, havia um tal de mIRC, que não me despertou muito interesse, com seus chats recheados de gírias e expressões nerds, quase um dialeto, e aquele visual nada convidativo, com cores berrantes saltando à tela. Pra muitos resumir o mIRC a isto é quase um sacrilégio, eu sei, mas o que tomou minha atenção na época foi um programa visualmente bem mais amigável e que se propunha a agrupar todos os seus contatos em uma lista para que prontamente fossem acionados para conversa. O nome do programa? ICQ ou “I Seek You”, algo como “Eu procuro você”, mas que no Brasil ficou conhecido mesmo como “i-cê-quê”.

“I se o quê?”

O ICQ era o supra-sumo dos programas de comunicação instantânea, ou “instant messenger” como eram conhecidos na gringa. Outros deram as caras na época , mas o ICQ foi o pioneiro, ganhou o gosto do brasileiro e foi através dele que muitos se comunicaram naqueles anos pré-redes sociais. Quem não lembra do som de máquina de escrever ao digitar? E o “UhOh” quando recebia uma mensagem? Pois é, não dá uma saudade?

Mas por que um programa com tanta aderência perdeu espaço à época para o nosso recém falecido MSN? Bom, o grande problema do ICQ era o tal UIN, ou “ICQ Number”. Era através dele que você era identificado. Na época utilizar um número até poderia parecer prático e coerente, já que todo mundo decorava seu telefone de casa por que não decorar o seu UIN?

Porém, não eram raras as vezes que alguém pedia para ser adicionado na sua lista de contatos, mas não lembrava do número. Até havia um sistema de busca no programa, mas ineficiente. Explico: como as pessoas perdiam o seu próprio número, ou esqueciam a senha, era comum uma mesma pessoa ter mais de um perfil e, por consequência, mais de um número. “E agora? Qual destes está em uso?”, você pensava.

Além disso, o ICQ foi se tornando com o passar do tempo o que podemos chamar de “elefante branco tecnológico”, com “trocentas” ferramentas e funções inúteis que só “ajudam” o programa a ficar mais pesado, e mais complicado de usar. Aliás, algo parecido aconteceu com os programas Windows Media Player e iTunes de uns tempos pra cá. Quem usa sabe do que estou falando. Sem contar que num país com uma classe C emergente comprando o primeiro computador, um programa praticamente em inglês e complicado de usar não era lá muito atrativo, não é mesmo?

Foi neste cenário que surgiu o MSN, ou Messenger como também ficou conhecido. No lugar de um número de identificação você tinha um email do Hotmail. Ao invés de inúmeras opções você podia apenas conversar com seus amigos, colocar emoticons e trocar arquivos. Básico demais? Pois é aí que residiu o grande trunfo do MSN: simplificou onde os outros teimavam em complicar. Qualquer pessoa, por mais limitada que fosse, conseguia utilizar o programa. Maldita inclusão digital, alguns dirão.

Login do MSN

É claro que com o tempo muitas funções novas foram sendo adicionadas ao MSN. Mas todas elas mantinham o aspecto intuitivo e simples das edições passadas. Inclusive a conexão de voz sobre IP, o famoso VoIP popularizado pelo Skype acabou sendo incorporada, com menor qualidade diga-se de passagem, mas estava lá lutando para manter o MSN atualizado e relevante para os seus usuários.

No entanto em um mundo ávido por tecnologia e melhorias não demorou muito para o reinado do Messenger começar a ruir. E incrivelmente hoje ele sai de uma guerra onde não perdeu para um programa de fato, veja só, mas para um aplicativo de conversa que faz parte do site que se tornou refêrencia nas redes sociais: o Facebook.

Bate-papo do Facebook

O Facebook se tornou o “tudo num só lugar” da nova geração. Está cada vez mais convergindo serviços, como mensagens instantâneas, vídeo, álbum, enfim, um achado e tanto para o usuário que busca ficar conectado e informado a todo instante. Até o Twitter anda meio sorumbático ultimamente com a adesão cada vez mais veloz de usuários para a plataforma do Sr. Zuckerberg. Tudo isso motivado mais uma vez pela praticidade, simplicidade e facilidade do serviço.

Essa morte do MSN é ao mesmo tempo evidente e reveladora. Evidente por que na visão do heavy user de internet e redes sociais uma plataforma única facilita a forma como ele interage, já que não precisa ter acesso a diversos aplicativos aos mesmo tempo. Reveladora por que uma gigante da tecnologia não conseguiu antever os anseios de uma geração que estava ali em massa utilizando os seus serviços. A que se deveu essa miopia? Infelizmente não sabemos.

Para os neosaudosistas ainda resta buscar uma sobrevida junto ao Skype, que se uniu simbióticamente ao MSN após ter sido comprado pela Microsoft, e terá a missão daqui pra frente de manter o legado dos mensageiros instantâneos por mais alguns anos. Ou seriam meses? Bom, isso só o tempo dirá.

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On 14 de January de 2013
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