As operadoras querem te tornar um pirata novamente

Nos últimos tempos um assunto vem tomando as redes sociais e as discussões de botequim. Impeachment? Não, que nada, o assunto da vez sem sombra de dúvidas é a restrição da internet fixa através do famigerado plano de dados.

Resumindo, se sua operadora de internet resolver adotar essa modalidade você passará a ter um limite mensal de consumo baseado no tráfego de dados. Ou seja, aquela série que você tanto gosta, aquela banda que você curte ver os clipes ou até mesmo aquele canal que você acompanha podem ficar bem salgados se você “abusar” da dose.

Obviamente o povo da internet, no qual me incluo, já se manifestou contrário a este tipo de cobrança, pois em um curto espaço de tempo teríamos que escolher muito bem o tipo de conteúdo que fossemos acessar. Dar uma sacada em um trabalho novo autoral? Acho que não, melhor escutar os clássicos do Iron Maiden. Quem sabe dar uma segunda chance aquele seriado que começou meio estranho? Não, muito arriscado, melhor focar no Game of Thrones. Fazer um curso EAD? Nem pensar. Não troco o Demolidor por Gestão Financeira. Enfim, imagina o impacto dessa medida na vida das pessoas?

Bom, na minha foi nítida a mudança: passei a fazer downloads de músicas, filmes e séries como se não houvesse amanhã. E fiz isso bem contrariado, por sinal. Na verdade o que me fez tomar essa atitude foi o medo de ter que pagar mais por um conteúdo que eu já estava habituado a adquirir de forma legal através de serviços de streaming. A lógica do final dos anos 90 de armazenar gigabytes de informação no computador de casa não se fazia mais necessário com tantos serviços disponibilizando tudo de maneira tão fácil. Enfim, bastava apenas uma boa conexão. Bastava.

Com essa nova “velha” mentalidade, estamos simplesmente renunciando a grande mudança no comportamento de consumo de conteúdo das últimas décadas, onde passamos de infratores de direitos autorais, ou adeptos da pirataria, para consumidores. A grande luta das grandes corporações que foi convencer as pessoas admitirem pagar conteúdo oriundo da web está sendo nocauteada pela ganância de outras grandes corporações. Veja só você.

O mais engraçado, se é que dá para achar algo engraçado nessa história, é que agora caem por terra as acusações de sermos desonestos, pois estamos sendo literalmente forçados a adotar práticas antiquadas, e o que é pior: viver na contramão do mindset colaborativo e de compartilhamento que rege a internet. Cobrar mais do usuário de internet admitindo uma lógica irreal de consumo de dados, como se a internet nos moldes atuais pudesse ser mensurada a partir da quantidade ou tipo de informações consumidas é no mínimo bizarro.

Mas essa investida na cobrança baseada em dados tem um foco bem específico: fazer você pagar mais por cultura e entretenimento. Músicas, filmes e séries são sabidamente os grandes “consumidores” de dados. Além disso, a grande maioria das operadoras de internet oferecem TV a cabo, e como se sabe o serviço está em queda livre justamente pelo sucesso de similares via streaming. E com as pessoas cada vez mais ligadas em qualidade de som e imagem a tendência é que esse tráfego se intensifique ainda mais. Imagine agora com o advento de filmes e séries em resolução 4k? Cobrar por dados nesse cenário seria um baita negócio.

Com as manifestações contrárias algumas operadoras já estão roendo a corda e recuando dessa medida, o que é muito válido. Mas vale a pena ficar ligado nos próximos acontecimentos para não sermos surpreendidos em um futuro próximo com o “imposto cultural” que querem nos impor. Ou com a polícia federal recolhendo seu computador com a discografia completa do Ace of Base. Em ambos os casos seria constrangedor.


 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Go to Top